sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Passeio Crepuscular em Montmartre





           
            Paris, Montmartre ao fim da tarde, a noite cai gélida, colando às janelas vagos desejos que os turistas procuram em vão guardar nas suas máquinas fotográficas digitais. A colina, encimada pela massa irreal da Sacré-Coeur, oferece-nos a vista da cidade que se espraia em luzes, lisa como a superfície de um lago quieto: torres de igrejas, flechas de catedrais, a torre Eiffel rasgando sonhos no céu de pastel.            
Revisito mentalmente Montmartre pela voz de Aznavour. A canção fala-nos da arte, da criação e da sua inebriante alegria, dos idealismos da juventude e seus vãos sonhos de glória, e duma coisa mais vaga e indefinida que tudo permeia, vaga como o ar e fugaz como o tempo: l’ air du temps, o ar do tempo, algo a que os alemães (tão metafísicos que eles são) chamam Zeitgeist, espírito do tempo. O tempo é o verdadeiro tema da canção. Mas trata-se de um tempo especial, com delimitadores bem marcados, um tempo transmutado em lugar, ou um lugar conjugado no imperfeito: boémia, Montmartre.
Montmartre, com efeito, é um passado suspenso, resquício inventado de outro tempo, sonho ingénuo de turistas pós-modernos, pequeno delírio crepuscular da cultura, cemitério kitsch da arte. Montmartre escreve-se no imperfeito, com a textura rendilhada das suas ruas oferecendo-nos o prazer inconsequente dos versos escritos pelos poêtes maudits e as pedras da calçada as linhas limpas das telas modernistas. Paris, vista de Montmartre é ela própria uma passante grácil e etérea, pequeno mundo caleidoscópico, flâneuse de si mesma. Os turistas, de máquina digital em punho, dão apenas a sequência possível à história: passantes par excellence fazem, de olhos no guia, um relaxado luto por uma civilização perdida, uma certa ideia de Europa, se quisermos.
A canção lamenta o tempo que passa, recusa a Montmartre atual, acha-a triste e desleixada porque deixou morrer os amores-perfeitos. A poesia, de facto, só reconhece perfeição aos amores pretéritos, um pouco como os casais que amam um no outro as recordações da paixão que os une. Há, afinal, outra forma de amar? Não, todo o amor é uma forma de narcisismo, ainda que partilhado. Como o amor narcisista de Montmartre por si mesma, artística e, ainda que preteritamente miserável, perenemente bela, orgulhosamente alçada acima das agitadas ruas parisienses. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Memória e Fantasmas em Berlim


       
Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche

       Numa “anatomia da memória, política e lugar” da nova Berlim K. E. Till escreve sobre “fantasmas” e lugares de memória que são “criados (…) para dar formas a ausências sentidas, medos e desejos que assombram a sociedade contemporânea e através dos quais sonhos contemporâneos de futuros nacionais são imaginados”. Este trecho, citado noutro livro, trouxe-me à memória impressões de uma viagem à capital alemã que fiz há uns anos. De facto, Berlim é uma cidade que ilustra bem a relação da sociedade europeia com os seus passados, entre a destruição e a obsessão, entre a fuga e a atração. E, no entanto, o passado está sempre, em Berlim, oculto por uma camada difusa de modernidade e pós-modernidade confusa e, por vezes, desconcertante. A memória, em Berlim, é sempre uma memória relutante, por vezes mais empenhada em esquecer do que em evocar o passado. Seria demasiado fácil ceder à tentação de explicar esta disposição à luz da peculiaridade da experiência histórica alemã, mas a impressão que sobra de uma visita à cidade é de que se trata de algo mais profundo. Talvez a inclinação para a transitoriedade dos passados que se sobrepõem uns aos outros assim se destruindo mutuamente tenha uma origem quase geológica, evocando um nome depreciativo pelo qual a Prússia era conhecida há uns séculos atrás: a caixa de areia da Europa. Para lá, portanto, da composição dos terrenos em que assenta, a cidade dá ocasionalmente a impressão de ser um deserto, ou uma praia, em que os presentes escritos na areia desaparecem antes de se tornarem passado. Ou, como disse Karl Scheffler a esse propósito, “Berlin ist eine Stadt, verdammt dazu, ewig zu werden, niemals zu sein” (Berlim é uma cidade condenada sempre a tornar-se, nunca a ser).
        A impressão, no entanto, que um circuito das atrações individuais dá, parece ser a contrária. A Gedächtniskirche (igreja da memória) é um memento da destruição da guerra, com a sua mole arruinada lançando uma sombra sobre as animadas ruas comerciais do Kurfurstendam. A demolição do Palast der Republik, antigo parlamento da R.D.A., pode à primeira vista parecer um atentado à memória histórica da cidade, mas a destruição desse passado é feita em nome da recuperação de um passado ainda mais antigo, nomeadamente para proceder à reconstrução do Stadtschloss, o palácio real dos Hohenzollern destruído durante a 2.ª Guerra Mundial. 

Demolição do Palast der Republik, com a Dom (Catedral) ao fundo

Suponho que os planeadores do mix de memória de Berlim terão achado que a Fernsehturm, construída pelos comunistas em Berlim oriental (que ironicamente reflete uma cruz quando o sol incide nela) e o próprio muro já representam suficientemente esse período da história. E depois há, claro, a representação kitsch da memória, mercadorizada para turista comprar, como os pedacinhos de muro, os soldados soviéticos ou os gorros de pele de urso russos.

Checkpoint Charlie
      
 O conjunto, no entanto, é algo que impressiona precisamente pela construção e pela certeza que transmite de que nada, naquela cidade, pretende comunicar qualquer ilusão de permanência ou mesmo autenticidade. Berlim é um jogo pós-moderno, um laboratório de identidades fragmentadas, em que o passado e o presente se misturam num sonho inarticulado de futuro. Por vezes, Berlim recusa-se a esperar por esse futuro, como no Sony Center/Potsdammer Platz. Aí edifícios futuristas criam uma ambiência cyberpunk, sem conseguirem fazer esquecer por completo um dos locais mais emblemáticos da cidade novecentista, posteriormente rasgado pela fronteira entre as duas Europas e agora ressuscitado como símbolo de uma globalização hipertecnológica. 

Sony Center/Potsdammer Platz

Outras vezes simplesmente anula o tempo e o próprio espaço, como no memorial do holocausto, perto do Reichstag (ele próprio um interessante híbrido de passado e presente). Ambos estiveram, aquando da sua construção, envoltos em polémica, como convém a uma cidade onde se joga muito da futura identidade europeia. Ambos são, no entanto, monumentos muito bem conseguidos. No caso do parlamento, a cúpula corporiza os valores de transparência indispensáveis à democracia; percorrer o memorial dá ao visitante, à medida que o chão afunda, a sensação de caminhar no nada, num lugar sem referências, sem marcas humanas, sem esperança. Sem fantasmas, sequer.

Holocaust-Mahnmal (Memorial do Holocausto) com o Reichstag ao fundo

    No entretanto, em Berlim, os fantasmas existem, notavelmente discretos, emergindo ocasionalmente por entre o som dos passos do visitante ecoando na calçada. E, mesmo não sabendo alemão, é fácil reconhecer o apelido judaico e as palavras deportiert e Auschwitz

Brückenstrasse
     Bibliografia: TILL, K. E. (2005). The New Berlin: Memory, Politics, Place. Minneapolis: University of Minnesota Press

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

La Meglio Giuventù (A Melhor Juventude), Marco Tullio Giordana (2003)



                 Por vezes o cinema apenas entretém, por vezes nem isso, por vezes faz-nos pensar, outras vezes, no entanto, inspira-nos e comove-nos, faz vibrar em nós cordas que o quotidiano apressado tenta emudecer. La meglio giuventù é um destes filmes: um longo intervalo no quotidiano apressado, forçado pelos seus 366 minutos de duração, tão densos de emoção e temas fortes que passam num ápice. Tinha-o visto há não muito tempo, mas uma viagem até Itália entretanto feita suscitou-me a vontade de o rever.
                O filme é tributário da longa tradição neorrealista italiana, dando continuidade aos dramas familiares habituais no cinema transalpino (e suas ramificações, porventura mais conhecidas, como O Padrinho de Copolla) e eloquentemente demostrando, a esse respeito, a vitalidade da tradição (de facto, o único momento em que se introduz um pouco de realismo mágico à maneira sul-americana acaba por ser comparativamente embaraçoso: a sério, deixem isso para o Almodóvar…). De resto, o filme é um excelente exemplo da sensibilidade humana que aprendemos a apreciar (e a esperar) no cinema italiano. Folhetinesco no melhor sentido da palavra, La meglio giuventù é essencialmente um filme sobre a Itália, feito sem grandes preocupações de inovação formal e colocando toda a ênfase naquilo que é realmente fundamental em cinema: a arte de bem contar boas histórias. O registo vagamente épico, com ecos homéricos entrecruzados com diversas referências culturais italianas, consegue produzir uma síntese credível entre a história contemporânea de Itália e o percurso das personagens. Das cheias de Florença à luta contra a máfia, das manifestações estudantis à integração europeia, do terrorismo vermelho aos desapontamentos da globalização, o filme é um belo e absorvente fresco de uma juventude que efetivamente mudou o mundo, mudando-se a si própria no caminho. De o rever sobrou-me, no entanto, a impressão reforçada de que o cinema não é História, mas sim Arte (até porque há histórias na História que só a Arte pode contar). E, com efeito, o filme transcende largamente a narração e revisitação históricas para almejar a algo muito superior, que é aquela indefinível, inefável, inenarrável chama que anima a vida a que, por falta de uma palavra melhor, chamamos sonho.
                Esta crítica poderia, portanto, começar no fim do filme, no Cabo Norte, no sítio onde o mundo, o tempo e os homens reencontram a sua ilusória circularidade e em que o sol da meia-noite, levemente afagando a fria superfície do oceano para de novo se erguer traduz não um verdadeiro fim: apenas um reinício, uma simbólica continuidade, o ténue fio tecido de memória e esquecimento, preservação e destruição, que liga as gerações entre si. 



domingo, 11 de dezembro de 2011

Volver, Pedro Almodóvar (2006)




                  Para mim, o melhor Almodóvar, já longe dos destrambelhamentos da Movida mas ainda sem as amarguras da idade. Para mim, a melhor Penélope Cruz, já mulher feita e atriz plena, mas antes dos Woody Allens insonsos, a fazer de espanhola pitoresca, a jeito para o postal ilustrado. Uma flor de maturidade cinematográfica, que sabe bem rever, um clímax, a obra-prima de Almodóvar, sem sombra de dúvida.
           Volver significa voltar, e a palavra, em espanhol, tem notórias características eufónicas. Há algo de circular na palavra, que Almodóvar faz refletir no filme, um pouco na lógica do eterno retorno, da necessária circularidade da vida, na inutilidade da fuga e na redenção que a mortalidade pressupõe. O filme é, acima de tudo, uma parábola sobre a transmissão da cultura entre gerações, não só entre quatro gerações de mulheres, mas da Espanha para si própria. E é sobretudo esta característica que faz do filme uma obra-prima, um símbolo narrativo da história contemporânea de um país. Senti desde logo, ao vê-lo e ao revê-lo, que é um filme profundamente espanhol: da minha parca experiência de travessias espanholas ao volante, reconheci a imensa meseta ibérica, com a sua planura batida pelo vento pressagiador da demência e as localidades semiabandonadas, de uma inenarrável desolação, entregues a não sei que fantasmas. Mas também perpassa ciclicamente pelo filme um dos grandes mitos da Espanha: Almodóvar, que já havia tratado a figura do toureiro (ou, mais propriamente, da toureira), evoca agora D. Quixote, pós-modernamente, nos aerogeradores que separam Madrid do lugarejo manchego, traços de união entre as duas Espanhas, a cosmopolita e a tradicional.
              Almodóvar sabe criar imagens oníricas a partir de realidades quotidianas e, por vezes, sórdidas. Em Tudo Sobre a Minha Mãe transforma um corrupio de carros em redor de um grupo de prostitutas numa belíssima dança noturna; aqui, cria um limbo entre a vida e a morte, num pátio azulejado do sul, numa daquelas casas povoadas de recordações e mistérios. A casa da tia Paula, no filme é, portanto, a própria Espanha, com os seus mal arrumados passados violentos, feitos de múltiplas violações e castrações, os seus assassinatos e as suas traições. E depois há, claro, os temas habituais no realizador, que já não são surpresa alguma, essencialmente plasmados no universo feminino. Até nisso o filme correspondente ao zénite da carreira de Almodóvar: aquele momento em que o realizador já havia criado o seu quadro de referência artístico original, mas em que o pedantismo ainda não lhe permitia comprazer-se na mera citação de si próprio. Assim, há os habituais intertextos cinematográficos, o fascínio pelas margens da sociedade e a gastronomia: são sempre encantadoras as sequências de cortes de legumes, particularmente os tomates, com a sua simbólica tonalidade vermelha. E claro, as mulheres que são, nas nossas culturas sul-europeias só epidermicamente patriarcais, as verdadeiras transmissoras da cultura entre gerações. São elas que calam, são elas que contam as histórias, são elas que redimem. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Sangue do meu Sangue, João Canijo (2011)




                  O Cineclube de Guimarães tenta, sempre que possível, contribuir para a superação do preconceito que os espectadores manifestam, habitualmente, em relação ao cinema português. Tenta mesmo, aliás, estão sempre a dizê-lo. Desta vez as coisas correram bastante bem: a sala do Pequeno Auditório (quiçá escolhida para evitar clareiras demasiado óbvias) quase não chegava para acolher toda a gente que veio ver este filme. De resto, e os circuitos cinematográficos alternativos têm este tipo de vantagem, a sessão ficou enriquecida com a presença do realizador, que conversou um pouco sobre o filme com os espectadores no final da sessão. Como sempre acontece nestas situações, a conversa foi interessante não tanto pelo que o realizador disse mas, essencialmente, pelas opiniões que os espectadores verbalizaram em relação ao que tinham acabado de ver.
                O filme propriamente dito é globalmente bom, embora esteja algo longe de ser, como aparentemente alguns críticos mais relaxados o classificaram, uma obra-prima. A espaços, e principalmente no início, parece que se encaminha nessa direção, mas quando a narrativa se adensa a riqueza de pormenores que faz a delícia do espectador até sensivelmente ao intervalo torna-se mais rarefeita, e o filme perde interesse. Um pouco como Romeu e Julieta, Sangue do meu Sangue começa por ser uma boa comédia que acaba como uma tragédia insossa, ainda por cima enfraquecida pela envolvência etnográfica que dilui o universal humano, essencial nesse género dramático. Há personagens deliciosas no filme que são abandonadas ou se perdem na atmosfera crescentemente negra que se vai criando à medida que a narrativa avança: a mãe (sem dúvida o melhor do filme, protagonizada por uma sempre excelente Rita Blanco), o dueto composto pelo namorado segurança e o irmão ladrãozeco que chega a lembrar Tom and Jerry, a namorada negra sorumbática que não abre a boca o filme todo… 
                Outro ponto forte do filme é a forma como nele é retratada a vida quotidiana ao nível familiar. A composição hiper-realista dos diálogos simultâneos, forçando o espectador a escolher qual deles quer ouvir, além de formalmente inovadora, ecoa metaforicamente a necessidade de fazer escolhas com que as personagens do filme se deparam. Também gostei da forma como o som de fundo das televisões foi usado: a única banda-sonora do filme são os relatos televisivos dos jogos de Portugal no mundial de 2010 e as notícias do telejornal que nos falam da entrevista do Teixeira dos Santos à CNN. Passou apenas um ano, e parece que já foi há tanto tempo! O filme mostra bem como, nestes dias, o presente passa à história diante dos nossos olhos confusos e aterrados. E depois, há o bairro Padre Cruz, que é uma personagem da história de pleno direito.
            Acontece que eu, curiosamente, conheço o bairro Padre Cruz: essa localização chamou-me de imediato a atenção quando li algo sobre o filme. O bairro Padre Cruz é um bairro social lisboeta, ao pé da Pontinha. Seria uma geografia que nada me diria, como não dizia à plateia na sessão, se não se desse a circunstância de eu, por acaso, o conhecer. E isso seria já de si interessante, nem que fosse simplesmente pela possibilidade de ver em cinema um local que conheço na realidade. Já tinha visto o Azibo, a linha do Tua (não, não foi no Pare, Escute e Olhe) e até uma certa rua de Paris, mas tudo de um modo meio acidental e algo fugaz. O bairro Padre Cruz, no entanto, irrompe por este filme adentro, com as suas vielas estandardizadas simulando, em mau urbanismo, o mapa hidrográfico português; os cães que não param de ladrar; os escarros profundos que rasgam a noite; o ensurdecedor ruído das vidas dos vizinhos, cujas trajetórias parecem poder ser narradas recorrendo apenas ao parco vocabulário constituído por meia dúzia de palavrões constantemente repetidos; a inacreditável pequenez das casas; a estranha consistência de lata e vidro velho que todo o bairro parece ter, que se cola aos ouvidos, às mãos, aos olhos; o bizarro caldo de cultura feito de transmontanos, beirões, alentejanos, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, brasileiros e ciganos; o perverso sentimento de comunidade que causa um estranho desconforto a quem entre no bairro vindo de fora dele; o café esquálido, único num raio de quilómetros, no qual a hora de fecho é apressada varrendo priscas quase por entre as pernas dos clientes; e as vistas sobre os arrabaldes lisboetas que se tem da estrada onde se apanha o autocarro, a meio caminho entre uma paisagem urbana com ressonâncias árabes e mexicanas e um surreal deserto feito de precários casinhotos com enormes blocos de apartamentos sem varandas ao fundo.