sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O rosé do Sr. Oliveira de Figueira

      Oliveira de Figueira é uma personagem dos livros do Tintim. Português do mundo, será quiçá um dos últimos dessa ínclita cepa de andarilhos desafortunados que peregrinaram por mares e continentes. Como o da outra peregrinação, a Peregrinaçam, de Fernão Mendes Pinto. E tal como este, também a do Sr. Oliveira de Figueira se adivinha suada. Mas, e o paralelismo prossegue, lábia não lhe falta, e muito portuguesmente o homem desenrasca-se sempre. A ele e ao Tintim que acaba sempre por lhe bater à porta aflito.
        Oliveira de Figueira é um comerciante que roça o charlatanismo, capaz de vender gelo a esquimós ou, como mais vulgarmente acontece, equipamento de esqui a árabes. Com efeito, Oliveira de Figueira parece ter assentado arraiais nas arábias, paisagem de eleição para Hergé.
    E é no Kehmed (país árabe fictício no centro de uma intriga petrolífera internacional) que ocorre a cena que aqui destaco. Trata-se de uma vinheta que me saltou à vista logo da primeira vez que a li pela referência explícita e bastante surpreendente a Portugal. Tintim chega, acossado por perseguidores, acompanhado por um exausto capitão Haddock. Despertado pelo rosé que o português servira para amenizar a conversa, o capitão faz a cortesia de esvaziar uma garrafa antes de cair num profundo sono. Subitamente, convulsionado por sabe-se lá que pesadelos, o capitão ergue o punho (esquerdo) e grita um sonoro “Às armas!”. Intrigado na sua portugalidade, o Sr. Oliveira de Figueira corresponde com um verde-rubro balão de espantada interrogação e exclamação.


        O que quer isto dizer? Súbito entusiasmo lusitanista (quiçá motivado pelo rosé)? Referência lateral ao tráfico de armas que subjaz à intriga do livro? Mas então e aquele punho esquerdo erguido? Haverá ali leituras políticas a fazer? O livro é de 1958, momento em que a ditadura do Estado Novo começava a ser seriamente questionada pelo mundo. Hergé não dá respostas, o Sr. Oliveira de Figueira também não, pelo que não vou ser eu a dá-las.  


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