quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Amsterdam

Dos enevoados portos do norte, música que conta histórias...

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Jardim do Morro, Gaia

         
                    Na distância esboça-se o voltear das margens. Olham-se de soslaio, como um par que se exercita na magnética oscilação de um tango. É sensual. Há nos requebros do rio um certo ar de anca grácil, um serpentear de corpo adivinhado. Na superfície de tudo, como um segundo rosto que se cola à face oscilante da cidade, a névoa vai coando a luz do crepúsculo. Penso distraidamente, enquanto escrevo sentado num banco de jardim, que essa neblina é um véu etéreo que tolda linhas e confunde pormenores. Sobra, a meus olhos, nesta hora imprecisa, a ilusão de um quadro impressionista animado de ruídos distantes, vago ciciar de um dia que termina. Derrama-se a Ribeira diante de mim. Cores confusas, tons de uma velha tristeza, poema arquitectónico que ecoa, em cidade, aquele outro poema geológico que Torga leu nas encostas de S. Leonardo da Galafura.
               Que volteante ode, com versos sulcados de rabelos, com métrica feita de vinho, escreve este Douro que agora se deixa lentamente acinzentar à luz morna do poente? 

terça-feira, 28 de setembro de 2010

José Mattoso, Susanne Daveau e Duarte Belo: Portugal, O Sabor da Terra


           Li o livro há já algum tempo. Entretanto, fui de férias: saída de Guimarães, travessia rápida (mas deslumbrante, como sempre) do vale do Douro, descida pela Beira Alta, exploração afincada dos recantos da serra da Estrela, súbita plana tranquilidade da Beira Baixa, entrada plena no Alentejo profundo, mergulho com o olhar nas águas do Alqueva do alto de Monsaraz, esfuziante costa algarvia, mais Alentejo, chuvas de Agosto pelas báquicas colinas Estremenhas e regresso ao Norte, enfim. Quase 2500 quilómetros, o espaço de meia Europa preenchida com (muito) diversa portugalidade.


        Não surpreende, como tal, que tenha lido o livro como uma espécie de preparação teórica para a viagem que se avizinhava. O título, de resto é suficientemente poético para fazer sonhar, enquanto o subtítulo resguarda uma decidida promessa de respeitável rigor científico. E assim é, com efeito.


           Muito mais recentemente decidi-me a escrever duas palavras sobre este livro durante uma viagem entre Mirandela e Guimarães. Afinal, o Norte é o meu espaço natural (sou transmontano, vivo em Guimarães, com o Porto como Alma Mater e uma marcante passagem por Leiria). Conduzindo pela estrada nacional que liga Murça a Vila Pouca de Aguiar, contemplando a paisagem alterada pela distância percorrida, interrogava-me sobre essa relação ambígua que mantemos com a terra. Parado numa reentrância da estrada, com muitas dezenas de quilómetros quadrados aos meus pés, de mapa na mão e olhar esquadrinhando o relevo, tive a impressão de que, mais do que qualquer mistério telúrico, era a mim próprio que procurava. Ali, por detrás da serra dos Passos, Mirandela, a cidade onde cresci; para lá da Nogueira, a última elevação visível no horizonte, fica Bragança, onde nasci. Diante de mim, a serra do Faro, balizando o vale do Tua, rio em que nadei, apanhei rãs e cobras de água, plácido curso de água a cuja beira li histórias de mares e países distantes. Muito ao longe adivinha-se o majestoso vale do Douro, rio que via da janela nos meus anos de estudante universitário. Tudo isto me fez e, marginalmente, também eu faço tudo isto. Sou o significado e o significante desta paisagem, eu e tantos como eu, em todas as épocas do mundo. A paisagem escreve-me, e eu escrevo-a com o olhar, e desta simbiose se faz a história. Dos caminhos e das viagens nos nutrimos. A isso convida este livro, a viajar, a sermos nós próprios e outros ao mesmo tempo, dentro deste país simultaneamente tão estranho e tão próximo.


             Bibliografia: MATOSSO, José, DAVEAU, Suzanne, BELO, Duarte (2010). Portugal: O Sabor da Terra - Um retrato histórico e geográfico por regiões. Lisboa: Círculo de Leitores

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Finais de Setembro: Azibo, Macedo de Cavaleiros

           
                  O vento leva-me as palavras antes que elas possam pousar no papel. Não sei se o café tem nome (deve ter). Fica assente no topo de uma colina suave, oferecendo-me a sua esplanada uma vista sobre a superfície inquieta das águas. Cores variam à medida que o mesmo vento que me embala o pensamento me rouba as palavras. Como faz com as nuvens, milimetricamente decalcadas do céu azul, numerosas, brancas como sonhos incertos, sumindo-se inexoravelmente por detrás do verde profundo dos montes gentis.
                Sabe-me a café, este súbito travo de Outono que os meus sentidos decalcam com prazer da ainda visível textura do Verão. O verde oscilante dos choupos que ao longe se agitam é já o prenúncio de uma recordação e, apesar das inúmeras vezes que aqui estive, a paisagem parece-me desconhecida, tocando-me com o mistério da sua inconstante perenidade. Não é no passado que penso. Nem no futuro, sinceramente. A paisagem, dentro e fora de mim, oferece-me unicamente a perfeição irrepetível deste momento.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Single Man, Tom Ford (2009)


       Há dias assim, em que o acaso nos oferece um presente; em que um acto indolente se transforma numa revelação; em que duas horas marcam a nossa imaginação para sempre. Ir ao cinema ver A Single Man foi tudo isso. Primeiro filme do estilista americano Tom Ford, A Single Man (traduzido para português como Um Homem Singular) adapta um texto fundador da literatura gay, obviamente auto-biográfico, do escritor inglês Christopher Isherwood. Do ponto de vista da narrativa, o filme retrata o último dia da vida de um professor despedaçado pela morte do seu companheiro de longa data. Resumidamente, o filme é um conto existencial sobre a busca de um significado para a vida, para a morte, para o amor. O resto é poesia, movendo-se o protagonista num registo elegíaco, em que os seus estados de alma são subtilmente marcados por variações de cores, entre a exuberância e o cinzentismo. Colin Firth é simplesmente impressionante. Num estilo contido, supremamente elegante, limpo e preciso, Firth deixa-nos abismados com a dignidade trágica que consegue emprestar à sua personagem. Mas o que realmente importa destacar para lá de um enredo (só aparentemente) simples, é o que este filme representa em termos estéticos. Sem dúvida, estamos perante um assaz arrojado exercício de estilo, um filme que aspira, desde o primeiro instante, a construir arte. Afinal, de que outra forma poderíamos definir aquelas sequências epifânicas em câmara lenta, em que o mais profundo significado de um gesto é revelado pela precisão de uma imagem envolta pela maravilhosa música de Shigeru Umebayashi e Abel Korzeniowski? O cheiro doce do pelo de um cão, o contorno dos lábios de uma mulher, o arrepio da água na pele, o silêncio... Ford escreve poemas com a câmara, haikus feitos com película, pedaços de infinito a 8 milímetros... O cinema raramente é melhor do que isto.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Paulo Eduardo Carvalho

                    Paulo Eduardo Carvalho, homem do teatro, tradutor, encenador, foi meu professor na FLUP. Era um homem que respirava literatura, apaixonado pela palavra e pelo gesto. A melhor forma de ilustrar o vazio que o seu desaparecimento deixa em mim é listar o que li com ele: The Birthday Party, de Harold Pinter; Waiting for Godot, de Samuel Beckett; Translations, de Brian Friel; Cloud Nine, de Caryl Churchill; várias peças de William Shakespeare entre outros textos fascinantes.