sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ouvindo rádio pela Nacional 105 fora


Uma viagem de cerca de uma hora entre o Porto e Guimarães ouvindo rádio. Não pertenço ao grupo maioritário de pessoas que apenas se ligam a este meio de comunicação de massas quando conduz: a ilustrá-lo tenho o facto de não ter televisão em casa. Sim, é chocante, mas desabituei-me quando era estudante (de licenciatura (pois verdadeiramente nunca deixei de o ser…): cheguei, nessa altura, à conclusão de que aquilo que a televisão me dava era muito inferior em importância àquilo que me tirava. Ouço rádio, portanto, todos os dias. Gosto do facto de não ser um meio de comunicação totalmente absorvente, como acontece com a televisão. Pode-se ouvir rádio enquanto se trabalha, por exemplo. Ou enquanto se conduz.
Conduzia eu portanto, pacata e serenamente, gozando o vento primaveril, ouvindo rádio. Gosto de conversa, mais do que de música. A música, de um modo muito pós-moderno, prefiro-a em mp3, à minha escolha. Não sou, no entanto, tão sectário que não aceite uma sugestão antes das notícias à hora certa. De facto, uma canção de que se goste, quando passada na rádio, tem um sabor especial: como se alguém no-la tivesse oferecido. Mas hoje fartei-me. Fartei-me de Fado. E a certa altura premi mesmo, com alguma fúria, o botão 6, correspondente à TSF. Irra, que já não suporto o banho diário de Fado que a Antena 1 me impinge!
Atentemos nesta problemática do Fado. Tempos houve em que havia a Amália e mais dois ou três. E ouvia-se, e era bom. Hoje os fadistas proliferam, na mesma proporção em que há uns anos proliferavam os psicólogos: virava-se uma pedra num canto de um baldio e lá estava um! Parece haver mesmo uma correlação. Há dias ouvi uma entrevista a uma recém-licenciada em direito que, não tendo emprego na sua área, se havia dedicado ao Fado: cantará ela decretos regulamentares, alíneas do código civil e emendas constitucionais? E se todos os jovens à rasca derem em fadistas? Quem é que o FMI vai encontrar por cá para pagar as dívidas? Meia dúzia de bêbados saudosos, como nos quadros do José Malhoa (o pintor, não o cantor)?
Se fosse só isso até se perdoava. E até teria a sua piada, dentro de certos limites. Afinal, um povo que até nos seus maiores defeitos sabe encontrar consolações poéticas não pode estar inteiramente perdido. Mas depois há aquela palavra que se repete até ao enjoo, em cada canção, em cada verso, em cada mínima, em cada colcheia… Lisboa para aqui, Lisboa acolá, Lisboa é bonita, Lisboa cheira bem, Lisboa dorme, acorda, adormece, Lisboa tem colinas, Lisboa tem rio, Lisboa tem céu, ruas, casas e carros… Ena, que Lisboa tem tanta coisa a torná-la especial que mil canções não chegam! Até que chega ao ponto em que a simples evocação de Lisboa já não basta: é preciso desdobrá-la em zonas, ruas e bairros para dar para mais canções. E ele é o homem do Saldanha, a viela da Mouraria, o rio em Belém, os telhados em Alfama, o cotovelo no Castelo, a varina da Ribeira, o pombo do Rossio, o poste no Lumiar, o engarrafamento na Pontinha, o ecoponto no Senhor Roubado, tudo serve para arrancar mais uns versitos à exaurida imaginação. Alguém se lembrou, no meio desta vertigem de fadistas, que o país tem mais 89970 quilómetros quadrados de superfície?
Conduzo pela nacional 105 fora (o facto de a A7 ser demasiado cara para o meu sensível bolso daria, só por si, um belo fadinho) e olho em redor, e penso... Porque não o Fado da desindustrialização? Que tal uma guitarrada acompanhando uma lamentação sobre o triste fado da fábrica do rio Vizela? Podia ser algo como “Povo que labutavas na linha/que talhas com teus subsídios/os cofres da nação”… Mesmo não indo tão longe, que tal subir a A1 (que lá se chama auto-estrada do norte) e passar uns fados de Coimbra de vez em quando, só para variar? Obviamente já não me atrevo a mencionar o facto de que há muita música de raiz tradicional neste país, que praticamente todas as regiões têm a sua identidade musical própria, e que em todas elas bandas desconhecidas procedem a interessantíssimas reinvenções desse património. Porque se insiste tanto, então, nesse género cada vez mais anquilosado e auto-complacente?
É fado mesmo, no sentido de fatum, destino. É a forma que o país tem de se lamentar da triste sina do FMI. Por isso há tanta Lisboa no Fado: afinal foi por lá que o desgoverno se aninhou ao longo dos nossos remediados séculos de história pátria. Lisboa cheira bem porque nunca teve de suar; isso é coisa para minhotos, transmontanos e beirões. E o papalvo provinciano acha graça. Já Eça os retratava, descendo o Chiado, rudes morgados que vinham, nos seus jaquetões coçados, receber as decadentes flores da civilização… Agora conduzem Audis A8, são eleitos por Vila Real e têm ajudas de custo.
Um dos temas mais recorrentes da nossa história é a forma como Lisboa, como forma de justificar o seu predomínio político, exporta o seu imaginário para o resto do país. Qualquer pessoa que já tenha visto a Marisa cantar as gaivotas do Tejo em Freixo de Espada à Cinta sabe ao que me refiro. Somos levados a identificar-nos culturalmente com varinas descalças quando vivemos a cinco horas de carro da praia mais próxima. Impingem-nos uma alma que não é nossa, martelam-nos essa alma nos ouvidos, até que entre, com toda a força de um sistema público de rádio e televisão que, como tudo neste país, está em Lisboa.
Por favor, dêem-me um movimento independentista… Os golos do FCP, só por si, já não me consolam. 

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