terça-feira, 13 de setembro de 2011

Bandas Sonoras

           O filme Gladiador, realizado em 2000 por Ridley Scott, havia de ter na sociedade portuguesa uma importância impossível de imaginar aquando da sua estreia. Não porque se tenha afirmado como um marco cinematográfico, não porque tenha influenciado de algum modo o cinema português, nem tão pouco porque o filme tenha batido recordes de bilheteira por estes lados. De facto, a importância da película, e muito particularmente da sua banda sonora (composta por Hans Zimmer, um veterano dos filmes de Hollywood) para a sociedade portuguesa radica num facto posterior e completamente extra-cinematográfico: as eleições legislativas de 2005, e a escolha da música mais marcante do filme como banda sonora da campanha do Partido Socialista. O efeito social disto é algo que só poderemos explicar com ajuda dessa disciplina inventada por Saussurre, a semiótica. Com efeito, desde então, o primeiro andamento da faixa três, intitulada A Batalha (que no filme constitui o ambiente musical de uma das últimas batalhas de expansão da Roma Imperial) enraizou-se na imagética musical portuguesa enquanto significante de um significado extremamente dinâmico, mais precisamente, José Sócrates. 


         O upgrade que isto representou em relação à anterior campanha socialista vitoriosa, a de António Guterres, é expressivo. Guterres havia ido buscar o Vangelis, uma coisa muito em voga nos anos 90, com uma trilha sonora que aludia a mares e navegações, assim prometendo novos descobrimentos. A força da música radicava nessa ideia, de que Guterres era um mero mensageiro, do progresso inevitável. Muito socialista, portanto.


     Sócrates foi, no entanto, e em consonância com o Zeitgeist, muito mais longe na pessoalização da campanha. Para ele, isso dos amanhãs que cantam era coisa de comunistas bafientos. A política, na realidade, é um campo de batalha e ele era um gladiador. Com o seu teleponto e o seu fato de bom corte estraçalharia líderes da oposição às dúzias, como o Maximus do filme limpava feras e musculados núbios, quase sem sujar a armadura. Ele, e não qualquer partido, era a esperança, o salvador de Roma, aliás, Portugal. A força da banda sonora deixara de ser, como com Guterres, uma ideia, para passar a ser um homem. De resto, Sócrates tinha pinta. Ao contrário de Guterres, que na melhor das hipóteses evocava um Gama rechonchudo, Sócrates saía-se bem no papel de atleta clássico, ele que gostava de correr em visitas de estado e era exímio no pugilato verbal.
        Foi, portanto, com um sentimento de decepção estética que assisti ao seu discurso de despedida, aquando das últimas eleições que deram a vitória ao PSD. Esperava mais, sinceramente. Imaginei que Sócrates sairia, em coerência com o papel que até então havia representado, como um gladiador tombado em glória. O filme poderia, de resto, ter proporcionado um apropriado inter-texto visual e sonoro: Maximus caindo na areia, rodeado pela consternação veneradora do coliseu, redimido pela música Agora somos livres, na voz de Lisa Gerrard. 


         Sócrates poderia ter optado por algo assim: seria poderosíssimo do ponto de vista semiótico, e cairia bem a um homem com uma noção tão aguda da estética no confronto político. Teria sido certamente muito mais dignificante do que aquela rebaldaria com jotas ululantes e jornalistas a fazer perguntas aborrecidas, do género, e agora que já não é primeiro-ministro, vai ser preso?

             * Após uma pesquisa descobri um detalhe interessante: a música da campanha de Guterres, A Conquista do Paraíso, pertence à banda sonora do filme homónimo, de Ridley Scott. Será o realizador militante do PS?

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