quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Pós-Guerra: História da Europa desde 1945, Tony Judt


                Tony Judt é um historiador britânico nascido em Londres em 1948. Com raízes familiares na Rússia, Bélgica e Lituânia, além de um background judaico, Tony Judt recorda vagamente o perfil do cosmopolita intelectual europeu de antes de 1914. É pois duplamente cativante a forma como nos guia através da Europa e dos seus passados perdidos.
                  Pós-Guerra: História da Europa desde 1945 percorre-se, assim, um pouco como uma galeria de espelhos, em que o passado reverbera em passados ainda mais distantes e obscuros, envolvendo o leitor numa longa (o livro tem quase mil páginas de letrinhas realmente pequeninas) descida ao Hades da(s) nossa(s) sociedade(s) europeia(s). As perspectivas são múltiplas, compondo um quadro da Europa vista a partir de realidades tão distintas como Portugal, a Escandinávia ou a Roménia. Particularmente importante, revestindo-se, agora que se comemora o vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim, de uma especial relevância, é o facto de esta obra reunir as duas metades da Europa do Pós-Guerra numa história comum, explorando ligações muitas vezes subestimadas entre o leste e o ocidente. A escrita é fluida, frequentemente espirituosa num estilo caracteristicamente britânico, e os capítulos dividem-se agradável e harmoniosamente entre análises mutuamente permeáveis da política, economia, sociedade e cultura. A tese central do livro, surpreendente e provocadora, sustenta que a 2.ª Guerra Mundial terminou somente quando o Muro de Berlim caiu tendo, n o entretanto, roubado à Europa de Leste meio século da sua história, arrebatando-a da sua essência intrinsecamente europeia. Para estes países o regresso à Europa foi também um regresso à História, à sua própria História que é igualmente nossa. (Pareceu-me bizarro pensar, quando visitei Berlim em Fevereiro de 2008, que até 1989 a Europa terminava ali, entre a Unter den Linden e o Tiergarten.)
                 Para alguém nascido pouco antes da queda do Muro de Berlim a impressão de se viver numa era pós-ideológica acentua-se quando se lê sobre as grandes guerras culturais do século passado, de Sartre a Camus, do Maio de 68 à Primavera de Praga, do julgamento de Nuremberga às lutas do Solidariedade. Não posso exactamente afirmar que sinta falta desse mundo (até porque não o conheci) em que quase tudo se definia na relação que cada um mantinha com o projecto socialista, embora sobre uma clara impressão de que tudo era muito mais simples quando havia uma ideia central em relação à qual havia apenas que afirmar-se contra ou a favor. Era simples e largamente simplista, ingénuo, até. Em retrospectiva é difícil acreditar que se tenha levado o comunismo tão a sério, mas não deixa de ser agradável saber que em tempos houve mais do que este amorfo espaço público pretensiosamente neo-liberal em que, por um lado, o consumo atordoante foi elevado a fim último da existência em sociedade e por outro, as grandes questões deixaram de ser debatidas no seio de uma cultura política comum. Podia-se entender um comunista, mas é impossível compreender um extremista islâmico.
                   Das revoluções morais dos anos 60 à falência final do socialismo, do triunfalismo do fim da história ao choque do extremismo islâmico manifestando-se dentro das nossas próprias fronteiras sobra, enfim, a questão final a que cabe a cada um de nós, europeus, responder: poderá ainda o século XXI pertencer à Europa?

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