sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Vinte Mil Léguas Submarinas, Júlio Verne


        Li este livro pela primeira vez há já uns anos, era ainda miúdo, e a impressão que me causou foi o bastante para me aventurar, na altura, por mais alguns títulos de Verne: Viagem ao Centro da Terra, uma fantasia geológica com um cientista que gagueja ao pronunciar terminologia científica; Uma Cidade Flutuante, uma intriga amorosa a bordo do, à época, maior navio do mundo, o Great Eastern e A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, uma aventura que é uma ode ao apressado e positivista mundo oitocentista. Em todos eles (com a excepção da Viagem ao Centro da Terra) transpirava um enorme fascínio pela máquina, e pelas possibilidades que esta abria ao homem. Dos rápidos vapores que cruzam a América transportando o fleumático inglês Phileas Fogg a velocidades transcontinentais às apaixonadas descrições das rodas dentadas do Great Eastern, rodando indiferentes às intrigas humanas que se vão desenrolando a bordo, Verne culmina no impressionante retrato do Nautilus, essa temível e fascinante máquina que percorre vinte mil tumultuosas léguas no seio do insondável oceano. Sobra a nítida impressão que o submarino é uma personagem da história por direito próprio, tal é o antropomorfismo com que a espaços este nos é apresentado.
       Nada mais injusto, portanto, do que a fama que Verne tem de ser um escritor algo seco e desinteressante, apropriado apenas a jovens leitores desejosos de aventura (que saltam, de resto, as partes mais aborrecidas). É verdade que se trata de um realista francês e sim, é também verdade que a cada vinte páginas o senhor nos presenteia com outras três preenchidas com a enumeração dos nomes científicos dos peixes que o professor Aronax vai observando pela janela do submarino; sim, tudo isto é verdade, mas não só de enluaradas noites romanas em que bandidos e camponesas vivem arrebatadoras paixões se alimenta a imaginação humana... Pelo meu lado, confesso que à terceira leitura das Vinte Mil Léguas Submarinas, e talvez em consequência da minha entretanto adquirida formação literária, fui capaz de descortinar uma notória cadência poética nas aparentemente áridas enumerações de nomes de peixes, algas, crustáceos, cefalópodes, artrópodes, cetáceos e afins... Se não servir para mais nada, este livro permite, pelo menos, perceber que até na composição química de uma aspirina é possível descortinar uma certa dose de poesia...
      É, no entanto, por detrás da face mais evidente do cientifismo de Verne que se esconde aquilo que realmente me fez reler o livro: a profunda sensibilidade humana que o escritor aplica na construção das suas personagens. Afinal, criar uma personagem como o Capitão Nemo não é coisa de somenos. As aparentes três penadas com que o formidável capitão é descrito lançam uma luz ainda mais intrigante sobre o feito. Lido o livro fica-se a conhecer este homem quase exclusivamente através do significado das suas acções, pois ele nada revela sobre si próprio. Nemo é, de resto, a palavra latina para “ninguém”, nome que reflecte a sua decisão de morrer para a sociedade dos homens ao mesmo tempo que nos dá um interessante eco invertido de Ulisses. Não sabemos, não o sabem os próprios tripulantes do Nautilus, quem é, de onde vem, ou para onde vai este homem e o seu submarino (entre os quais há uma profunda afinidade, a ponto de, a espaços, não se distinguirem). E, no entanto (e talvez precisamente por isso), o Capitão ficou impresso na minha imaginação, desde a primeira vez que li o livro, como o exemplo mais acabado, mais depurado e mais fascinante do herói trágico. Por isso regresso, ocasionalmente, à companhia desse semideus, desse Ulisses sem Ítaca, desse humano Poseidon reinando solitário entre as vagas do eterno esquecimento...

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