domingo, 11 de dezembro de 2011

Volver, Pedro Almodóvar (2006)




                  Para mim, o melhor Almodóvar, já longe dos destrambelhamentos da Movida mas ainda sem as amarguras da idade. Para mim, a melhor Penélope Cruz, já mulher feita e atriz plena, mas antes dos Woody Allens insonsos, a fazer de espanhola pitoresca, a jeito para o postal ilustrado. Uma flor de maturidade cinematográfica, que sabe bem rever, um clímax, a obra-prima de Almodóvar, sem sombra de dúvida.
           Volver significa voltar, e a palavra, em espanhol, tem notórias características eufónicas. Há algo de circular na palavra, que Almodóvar faz refletir no filme, um pouco na lógica do eterno retorno, da necessária circularidade da vida, na inutilidade da fuga e na redenção que a mortalidade pressupõe. O filme é, acima de tudo, uma parábola sobre a transmissão da cultura entre gerações, não só entre quatro gerações de mulheres, mas da Espanha para si própria. E é sobretudo esta característica que faz do filme uma obra-prima, um símbolo narrativo da história contemporânea de um país. Senti desde logo, ao vê-lo e ao revê-lo, que é um filme profundamente espanhol: da minha parca experiência de travessias espanholas ao volante, reconheci a imensa meseta ibérica, com a sua planura batida pelo vento pressagiador da demência e as localidades semiabandonadas, de uma inenarrável desolação, entregues a não sei que fantasmas. Mas também perpassa ciclicamente pelo filme um dos grandes mitos da Espanha: Almodóvar, que já havia tratado a figura do toureiro (ou, mais propriamente, da toureira), evoca agora D. Quixote, pós-modernamente, nos aerogeradores que separam Madrid do lugarejo manchego, traços de união entre as duas Espanhas, a cosmopolita e a tradicional.
              Almodóvar sabe criar imagens oníricas a partir de realidades quotidianas e, por vezes, sórdidas. Em Tudo Sobre a Minha Mãe transforma um corrupio de carros em redor de um grupo de prostitutas numa belíssima dança noturna; aqui, cria um limbo entre a vida e a morte, num pátio azulejado do sul, numa daquelas casas povoadas de recordações e mistérios. A casa da tia Paula, no filme é, portanto, a própria Espanha, com os seus mal arrumados passados violentos, feitos de múltiplas violações e castrações, os seus assassinatos e as suas traições. E depois há, claro, os temas habituais no realizador, que já não são surpresa alguma, essencialmente plasmados no universo feminino. Até nisso o filme correspondente ao zénite da carreira de Almodóvar: aquele momento em que o realizador já havia criado o seu quadro de referência artístico original, mas em que o pedantismo ainda não lhe permitia comprazer-se na mera citação de si próprio. Assim, há os habituais intertextos cinematográficos, o fascínio pelas margens da sociedade e a gastronomia: são sempre encantadoras as sequências de cortes de legumes, particularmente os tomates, com a sua simbólica tonalidade vermelha. E claro, as mulheres que são, nas nossas culturas sul-europeias só epidermicamente patriarcais, as verdadeiras transmissoras da cultura entre gerações. São elas que calam, são elas que contam as histórias, são elas que redimem. 

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