quinta-feira, 17 de novembro de 2011

The Adventures of Tintin: the Secret of the Unicorn, Steven Spielberg (2011)




                Sempre gostei de banda-desenhada em geral, e do Tintim em particular. Lembro-me bastante bem da primeira vez que li um livro da personagem, embora não tenha a certeza absoluta se era A Ilha Negra ou O Cetro de Ottokar. Dei com o álbum na biblioteca da escola preparatória, andava eu no 5.º ano, e daí foi certamente um passo rápido para o encantamento. Da linha, da cor, da aventura, mas essencialmente da viagem. E, fosse num país balcânico imaginário, fosse sob os céus plúmbeos da Escócia, soube-me bem viajar naquelas pausas antes das aulas da tarde, a seguir ao intragável almoço na cantina (sei que todos os alunos se queixam das cantinas mas, acreditem, eu tinha razões para isso).

A Ilha Negra (clique para aumentar)

           Não voltei a encontrar-me com o Tintim durante bastantes anos. De facto redescobri-o apenas quando o jornal Público disponibilizou, a preço de saldo, a coleção completa das suas aventuras. Nessa altura eu já não era propriamente uma criança. O encantamento, no entanto, permaneceu: com efeito o Tintim mostrou-me, para meu agrado, que a minha predisposição para o deleite só aumentou com os anos. E essa constatação dá-me argumentos para superar o habitual preconceito sobre o que é para crianças e jovens e o que é para adultos. De facto, porque é que aquilo que realmente nos deleitou em miúdos tem de ser tão implacavelmente deitado fora só porque nos tornamos adultos? Não, há coisas que o próprio tempo se encarrega de canonizar, e que assim transcendem essas catalogações fáceis. Portanto, continuei a deixar-me levar pelas aventuras do Tintim. Leio-as e releio-as avidamente, na realidade. E já cheguei, até, a escrever sobre elas, numa determinada altura: http://a-espera-de-godot.blogspot.com/2011_01_01_archive.html.
                   Conheço bastante bem, portanto, o universo das aventuras de Tintim. E, como tal, achei que não devia deixar de ver o recente filme da personagem. Sabia de antemão, como sempre acontece nestas coisas, que o produto podia não me agradar inteiramente, que o mais certo era mesmo não me agradar, mas enfim, deixei-me de purismos e lá pus, como os outros, os óculos 3D. Em último caso, o deleite dos álbuns já ninguém mo tira, pensei. Lembrei-me, no entanto, de umas linhas num ensaio de T. S. Eliot, Tradition and the Individual Talent, no qual é dito que não são apenas os clássicos que influenciam as variações que sobre eles são feitas: de facto, também essas variações moldam as leituras ulteriores dos próprios clássicos. Os álbuns, portanto, já não serão exatamente a mesma coisa depois disto…
            Façamos, portanto, uma apreciação do filme em termos positivos e negativos (atenção: daqui para a frente há spoilers). Comecemos pelos positivos. Graficamente, o filme é interessante. Ainda que não tenha gostado do retrato do Capitão Haddock (estático, exagerado e, face ao original, inexpressivo), a transposição para um modelo semirreal do Tintim está bastante bem feita. O boneco consegue uma síntese perfeita entre o seu original desenhado e o que seria o seu correspondente na vida real. A cena do retrato feito no mercado (não consegui confirmar se o retratista é o próprio Hergé, mas seria bastante inteligente que fosse) é particularmente feliz ao estabelecer essa ligação ao mesmo tempo que faz um tributo aos álbuns. O argumento, centrado nos álbuns O Segredo do Licorne e O Caranguejo das Tenazes de Ouro, parece-me também bastante bem-conseguido ao conseguir fazer referência a elementos de praticamente todos os álbuns. A junção mais forçada é a cena das bolas de bebida disputadas entre o Capitão e Milu, em que as quedas livres da aeronave simulam o efeito de ausência de gravidade que ocorre, na realidade, no álbum Explorando a Lua

Explorando a Lua (clique para aumentar)

Este é um exemplo de como a linha narrativa do filme caminha perigosamente perto de se transformar numa caldeirada de Tintim: penso, de qualquer modo, que tal não é o caso, e essa é definitivamente uma qualidade do argumento.
       No entanto, alguém que não tenha lido nenhum dos álbuns (e aqui entramos na crítica negativa) ficará, apesar disso, com uma visão profundamente errada do que é a série de álbuns do Tintim. A este respeito é interessante interrogar as pequenas diferenças: confesso que não resisti a folhear os dois álbuns que mais explicitamente servem de base ao filme ao chegar a casa. Há, desde logo, as pequenas alterações inexplicáveis. O hidroavião que metralha Tintim, o Capitão Haddock e Milu em alto-mar tem, no álbum, matrícula marroquina. Por que insondável motivo é que no filme lhe põem uma matrícula portuguesa? Uma referência obscura ao facto de haver uma personagem portuguesa nos álbuns (que não aparece no filme)? Mas se o senhor Oliveira da Figueira é uma personagem claramente positiva, que por mais de uma vez ajudou o Tintim, porquê essa despromoção tão grosseira dos portugueses no filme? Porque é que de simpáticos vendedores de bugigangas nos livros passámos a metralhadores de náufragos no cinema? Não bastam já as agências para denegrir a nossa imagem internacional?

O Caranguejo das Tenazes de Ouro (clique para aumentar)

               Outra alteração, essa já mais explicável, é aquela a que é sujeito o xeque Omar ben-Salaad. Tudo bem que nos álbuns este é um traficante de ópio: mas o grau de malvadez a que o filme o eleva é completamente despropositado. O ben-Salaad do álbum faz-se transportar sobre uma mula no meio do seu povo: o do filme vive num palácio híper-sumptuoso, rodeado pelas águas duma barragem a abarrotar enquanto o povo raciona água. A explicação é simples: o público americano não consegue conceber um xeque que não seja um tirano e que não viva no luxo enquanto o povo sofre. A imagem do ben-Salaad original irritaria, portanto, muita daquela gente que acha que a vocação nacional dos Estados Unidos é libertar povos árabes dos seus déspotas. Paradoxalmente (ou não), o Tintim do filme está-se nas tintas para o povo árabe, bem ao contrário do seu modelo desenhado. Bem à moda americana, este Tintim de Spielberg limita-se a destruir completamente uma cidade árabe.

O Caranguejo das Tenazes de Ouro (clique para aumentar)

               Isto leva-nos a outra questão mais profunda. A banda-desenhada franco-belga é diferente dos comics americanos precisamente na medida da contenção. Os heróis franco-belgas são, para todos os efeitos, humanos, o que permite uma identificação mais genuína. Ao ler um comic do Super-Homem eu sei, desde logo, que não posso voar, não posso amparar um Boeing em queda livre, não posso congelar, com um sopro, um vulcão em atividade. O Homem-Aranha ainda se suporta: afinal, Peter Parker é um estudante universitário teso, com um part-time miserável e uma namorada chata a quem calhou a ambígua sorte de ser mordido por uma aranha radioativa (algo que pode, afinal, acontecer a qualquer pessoa). Já o Batman será, porventura, o único herói de comics sem superpoderes, mas aquele hábito de vestir o sobrinho com aquelas roupas coloridas é, no mínimo, suspeito. A banda-desenhada americana alimenta-se, portanto, de uma estética do excesso (e isso é normal, é bom mesmo, afinal habituámo-nos a ela assim). Não exagerarei, no entanto, se disser que é a essa estética que este filme converte o ícone maior da banda-desenhada franco-belga: e disso, no entanto, não gostei, não gostei mesmo nada. Seria expectável, e até desculpável numa certa medida, mas Spielberg exagera. Do ponto de vista de qualquer possibilidade de identificação com a personagem, este Tintim supera o próprio Super-Homem: este Tintim, na realidade, é um Ranger do Texas…
                  Já não falo, aqui, das pequenas diferenças. No álbum Tintim, ao procurar qualquer coisa (o pergaminho) debaixo de um armário agacha-se e apalpa por debaixo do móvel como uma pessoa normal, dando ao levantar-se uma cabeçada na gaveta superior, que estava aberta. 

O Segredo do Licorne (clique para aumentar)

            Nem isso o super-herói de Spielberg pode fazer: fortalhaço como é, arrasta o armário com um golpe decidido de braços. Mas enfim, como dizia, pequenas diferenças. O que já não é uma diferença pequena, mas antes altera completamente a personalidade da personagem, é a constante necessidade de autoafirmação, que toma conta de Tintim, de Haddock e do próprio Milu. Todos passam o filme a tentar provar que são machos carregados de testosterona. Tintim, que nos álbuns só pegava num revolver quando era mesmo preciso, tem no filme dedo leve no gatilho. Haddock é acometido de culpas puritanas, bem ao estilo protestante, sempre que bebe: e bebe de tudo, parecendo mesmo preferir álcool etílico ao scotch que lhe fazia as delícias nos álbuns. E depois tem flatulências, e arrota generosamente, coisa que nunca fez num álbum. E até Milu domina um Rottweiler (que, no álbum, é um dogue alemão). Já não queria pegar pela mirabolante história de vinganças transgeracionais que inventaram para o Capitão mas, enfim, como dizia o outro senhor, não havia necessidade…
                  Aqui há uns anos surgiu uma publicação, que retomava a personagem do Tintim na idade adulta. Milu havia morrido, Haddock mergulhara em definitivo no álcool, e Tintim era um misto de repórter e detetive de film noir com uma vida sexual turbulenta e generosamente povoada. A ideia causou polémica, ao ponto de a publicação ser cancelada. A opinião geral foi de que há limites para o que se pode fazer com uma personagem. A pergunta é: se for Spielberg a fazê-lo, já não há? 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Entre Beethoven, Larkin e Goya


      A música é o segundo andamento da 7.ª Sinfonia de Beethoven. É um trecho bastante conhecido, que surgiu recentemente enquanto banda sonora do filme O Discurso do Rei


Na banda sonora do filme a música aparece sob o título Speaking unto Nations. Há uma nuance discursiva no título em inglês que o nosso idioma demasiado igualitário não permite retratar exatamente, que é a o significado transmitido pela preposição unto. Falando a nações, portanto, mas falando de cima para baixo. A música transmite sentimentos semelhantes. No filme, podemos lê-la à luz do velho nacionalismo europeu, culminando no momento em que o velho Império Britânico declara guerra à rejuvenescida Alemanha Nazi. Há algo de profundo e subterrâneo, de força de gigante adormecido nos graves lentos dos violoncelos, uma vontade que acorda e progride para os tons mais altos dos violinos. Há, essencialmente, um tom ominoso: uma certa clareza que morrerá, uma inocência e espontaneidade que não mais terão lugar na Europa. Nos versos de Philip Larkin:

Não mais essa inocência,
Nunca antes, ou desde então,
Como transmutando-se em passado
Sem uma palavra – os homens
Deixando jardins bem cuidados,
Os milhares de casamentos,
Durando apenas um pouco mais:
Nunca mais essa inocência.*


          Parafraseando Nietzsche e Leni Riefenstahl, a vontade que se ergue e esmaga sob o seu peso a insustentável leveza das existências simples. A vontade, perguntaremos nós hoje, europeus contemporâneos, mas que vontade? Saberemos nós ainda distinguir a vontade da inexorabilidade? Por leitura hipertextual, a música conduz-me à pintura, Beethoven conduz-me a Goya. E penso se o pintor espanhol (ou o seu aprendiz que rubricou O Colosso) estaria a pensar em nós ao criar esta indistinta e assustadora visão do futuro. 






            * A tradução é minha: original em http://net.lib.byu.edu/english/WWI/influence/MCMXIV.html.
            

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Bandas Sonoras

           O filme Gladiador, realizado em 2000 por Ridley Scott, havia de ter na sociedade portuguesa uma importância impossível de imaginar aquando da sua estreia. Não porque se tenha afirmado como um marco cinematográfico, não porque tenha influenciado de algum modo o cinema português, nem tão pouco porque o filme tenha batido recordes de bilheteira por estes lados. De facto, a importância da película, e muito particularmente da sua banda sonora (composta por Hans Zimmer, um veterano dos filmes de Hollywood) para a sociedade portuguesa radica num facto posterior e completamente extra-cinematográfico: as eleições legislativas de 2005, e a escolha da música mais marcante do filme como banda sonora da campanha do Partido Socialista. O efeito social disto é algo que só poderemos explicar com ajuda dessa disciplina inventada por Saussurre, a semiótica. Com efeito, desde então, o primeiro andamento da faixa três, intitulada A Batalha (que no filme constitui o ambiente musical de uma das últimas batalhas de expansão da Roma Imperial) enraizou-se na imagética musical portuguesa enquanto significante de um significado extremamente dinâmico, mais precisamente, José Sócrates. 


         O upgrade que isto representou em relação à anterior campanha socialista vitoriosa, a de António Guterres, é expressivo. Guterres havia ido buscar o Vangelis, uma coisa muito em voga nos anos 90, com uma trilha sonora que aludia a mares e navegações, assim prometendo novos descobrimentos. A força da música radicava nessa ideia, de que Guterres era um mero mensageiro, do progresso inevitável. Muito socialista, portanto.


     Sócrates foi, no entanto, e em consonância com o Zeitgeist, muito mais longe na pessoalização da campanha. Para ele, isso dos amanhãs que cantam era coisa de comunistas bafientos. A política, na realidade, é um campo de batalha e ele era um gladiador. Com o seu teleponto e o seu fato de bom corte estraçalharia líderes da oposição às dúzias, como o Maximus do filme limpava feras e musculados núbios, quase sem sujar a armadura. Ele, e não qualquer partido, era a esperança, o salvador de Roma, aliás, Portugal. A força da banda sonora deixara de ser, como com Guterres, uma ideia, para passar a ser um homem. De resto, Sócrates tinha pinta. Ao contrário de Guterres, que na melhor das hipóteses evocava um Gama rechonchudo, Sócrates saía-se bem no papel de atleta clássico, ele que gostava de correr em visitas de estado e era exímio no pugilato verbal.
        Foi, portanto, com um sentimento de decepção estética que assisti ao seu discurso de despedida, aquando das últimas eleições que deram a vitória ao PSD. Esperava mais, sinceramente. Imaginei que Sócrates sairia, em coerência com o papel que até então havia representado, como um gladiador tombado em glória. O filme poderia, de resto, ter proporcionado um apropriado inter-texto visual e sonoro: Maximus caindo na areia, rodeado pela consternação veneradora do coliseu, redimido pela música Agora somos livres, na voz de Lisa Gerrard. 


         Sócrates poderia ter optado por algo assim: seria poderosíssimo do ponto de vista semiótico, e cairia bem a um homem com uma noção tão aguda da estética no confronto político. Teria sido certamente muito mais dignificante do que aquela rebaldaria com jotas ululantes e jornalistas a fazer perguntas aborrecidas, do género, e agora que já não é primeiro-ministro, vai ser preso?

             * Após uma pesquisa descobri um detalhe interessante: a música da campanha de Guterres, A Conquista do Paraíso, pertence à banda sonora do filme homónimo, de Ridley Scott. Será o realizador militante do PS?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

The King's Speech, Tom Hooper (2010)

   
      Vi Colin Firth em A Single Man há uns tempos (http://a-espera-de-godot.blogspot.com/2010/05/single-man-tom-ford-2009.html). Na altura foi uma surpresa; desta vez já não. As expectativas iam, portanto, extremamente elevadas para este filme. Para mais, tive de esperar bastante tempo para o ver: com efeito, demorou um pouco a chegar ao Cineclube de Guimarães…
        Lembro-me de ouvir na rádio uma entrevista ao Colin Firth, na sequência dos Óscares. Dizia, e cito de cor, não saber grande coisa sobre Jorge VI antes de ser abordado para o papel; ficou surpreendido quando começou a estudar a figura histórica ao descobrir a “história de uma dignidade tranquila”. O perfil do papel assemelha-se, portanto, àquilo que Firth fez em A Single Man.
                                No entanto, ao contrário do filme anterior, que era em boa medida um one-man-show, em The King’s Speech há também Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter. Ingleses, ou quase (Rush é australiano), estes actores fazem-me sempre pensar em palcos de teatro, mais do que em telas de cinema. E, por conseguinte, fazem-me também pensar na figura tutelar da literatura inglesa. O filme é, de certo modo, um tributo, um filme de actores, aparentemente feito para homenagear esse outro autor, William Shakespeare. As referências abundam: inter-textos shakespearianos, de Macbeth a Hamlet, peças sobre reis assombrados pelos seus predecessores, peças sobre a audácia e o medo, bom… Quando se fala de Shakespeare é mais fácil dizer, simplesmente, peças sobre tudo, até sobre o que ainda não foi sequer sonhado.
                             Reverbera, ainda a propósito de Shakespeare, o comentário de Jorge V sobre a rádio. Na Inglaterra isabelina, no tempo em que o Bardo pisou os palcos, a reputação social dos actores era baixa. Ralé entre a ralé, era assim que estes eram vistos, ainda que nas suas vozes os maiores heróis da História regressassem à vida transmutados em poesia. O velho rei Jorge V, depois de uma pausada saudação de Natal aos seus súbditos transmitida na rádio, repreende o seu filho gago. Os líderes do séc. XX teriam de falar para rádios (e televisões, depois). Teriam de sorrir e de acenar, teriam de inspirar multidões. Teriam de descer à categoria da ralé entre a ralé, teriam, em suma, de ser actores.      

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ouvindo rádio pela Nacional 105 fora


Uma viagem de cerca de uma hora entre o Porto e Guimarães ouvindo rádio. Não pertenço ao grupo maioritário de pessoas que apenas se ligam a este meio de comunicação de massas quando conduz: a ilustrá-lo tenho o facto de não ter televisão em casa. Sim, é chocante, mas desabituei-me quando era estudante (de licenciatura (pois verdadeiramente nunca deixei de o ser…): cheguei, nessa altura, à conclusão de que aquilo que a televisão me dava era muito inferior em importância àquilo que me tirava. Ouço rádio, portanto, todos os dias. Gosto do facto de não ser um meio de comunicação totalmente absorvente, como acontece com a televisão. Pode-se ouvir rádio enquanto se trabalha, por exemplo. Ou enquanto se conduz.
Conduzia eu portanto, pacata e serenamente, gozando o vento primaveril, ouvindo rádio. Gosto de conversa, mais do que de música. A música, de um modo muito pós-moderno, prefiro-a em mp3, à minha escolha. Não sou, no entanto, tão sectário que não aceite uma sugestão antes das notícias à hora certa. De facto, uma canção de que se goste, quando passada na rádio, tem um sabor especial: como se alguém no-la tivesse oferecido. Mas hoje fartei-me. Fartei-me de Fado. E a certa altura premi mesmo, com alguma fúria, o botão 6, correspondente à TSF. Irra, que já não suporto o banho diário de Fado que a Antena 1 me impinge!
Atentemos nesta problemática do Fado. Tempos houve em que havia a Amália e mais dois ou três. E ouvia-se, e era bom. Hoje os fadistas proliferam, na mesma proporção em que há uns anos proliferavam os psicólogos: virava-se uma pedra num canto de um baldio e lá estava um! Parece haver mesmo uma correlação. Há dias ouvi uma entrevista a uma recém-licenciada em direito que, não tendo emprego na sua área, se havia dedicado ao Fado: cantará ela decretos regulamentares, alíneas do código civil e emendas constitucionais? E se todos os jovens à rasca derem em fadistas? Quem é que o FMI vai encontrar por cá para pagar as dívidas? Meia dúzia de bêbados saudosos, como nos quadros do José Malhoa (o pintor, não o cantor)?
Se fosse só isso até se perdoava. E até teria a sua piada, dentro de certos limites. Afinal, um povo que até nos seus maiores defeitos sabe encontrar consolações poéticas não pode estar inteiramente perdido. Mas depois há aquela palavra que se repete até ao enjoo, em cada canção, em cada verso, em cada mínima, em cada colcheia… Lisboa para aqui, Lisboa acolá, Lisboa é bonita, Lisboa cheira bem, Lisboa dorme, acorda, adormece, Lisboa tem colinas, Lisboa tem rio, Lisboa tem céu, ruas, casas e carros… Ena, que Lisboa tem tanta coisa a torná-la especial que mil canções não chegam! Até que chega ao ponto em que a simples evocação de Lisboa já não basta: é preciso desdobrá-la em zonas, ruas e bairros para dar para mais canções. E ele é o homem do Saldanha, a viela da Mouraria, o rio em Belém, os telhados em Alfama, o cotovelo no Castelo, a varina da Ribeira, o pombo do Rossio, o poste no Lumiar, o engarrafamento na Pontinha, o ecoponto no Senhor Roubado, tudo serve para arrancar mais uns versitos à exaurida imaginação. Alguém se lembrou, no meio desta vertigem de fadistas, que o país tem mais 89970 quilómetros quadrados de superfície?
Conduzo pela nacional 105 fora (o facto de a A7 ser demasiado cara para o meu sensível bolso daria, só por si, um belo fadinho) e olho em redor, e penso... Porque não o Fado da desindustrialização? Que tal uma guitarrada acompanhando uma lamentação sobre o triste fado da fábrica do rio Vizela? Podia ser algo como “Povo que labutavas na linha/que talhas com teus subsídios/os cofres da nação”… Mesmo não indo tão longe, que tal subir a A1 (que lá se chama auto-estrada do norte) e passar uns fados de Coimbra de vez em quando, só para variar? Obviamente já não me atrevo a mencionar o facto de que há muita música de raiz tradicional neste país, que praticamente todas as regiões têm a sua identidade musical própria, e que em todas elas bandas desconhecidas procedem a interessantíssimas reinvenções desse património. Porque se insiste tanto, então, nesse género cada vez mais anquilosado e auto-complacente?
É fado mesmo, no sentido de fatum, destino. É a forma que o país tem de se lamentar da triste sina do FMI. Por isso há tanta Lisboa no Fado: afinal foi por lá que o desgoverno se aninhou ao longo dos nossos remediados séculos de história pátria. Lisboa cheira bem porque nunca teve de suar; isso é coisa para minhotos, transmontanos e beirões. E o papalvo provinciano acha graça. Já Eça os retratava, descendo o Chiado, rudes morgados que vinham, nos seus jaquetões coçados, receber as decadentes flores da civilização… Agora conduzem Audis A8, são eleitos por Vila Real e têm ajudas de custo.
Um dos temas mais recorrentes da nossa história é a forma como Lisboa, como forma de justificar o seu predomínio político, exporta o seu imaginário para o resto do país. Qualquer pessoa que já tenha visto a Marisa cantar as gaivotas do Tejo em Freixo de Espada à Cinta sabe ao que me refiro. Somos levados a identificar-nos culturalmente com varinas descalças quando vivemos a cinco horas de carro da praia mais próxima. Impingem-nos uma alma que não é nossa, martelam-nos essa alma nos ouvidos, até que entre, com toda a força de um sistema público de rádio e televisão que, como tudo neste país, está em Lisboa.
Por favor, dêem-me um movimento independentista… Os golos do FCP, só por si, já não me consolam.